A Crônica das Crônicas

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* Lênon Kramer tem 26 anos, escorpiano, estudante de antropologia na UFSCar, fã de ficção científica e fantástica desde o berço, jogador de RPG e sempre gostou de compartilhar as experiências de leitura com os amigos. Aqui nesta coluna, ele vai ter espaço para fazê-lo com ainda mais pessoas.

“Na profundidade do inconsciente humano existe uma necessidade penetrante de um universo lógico, que faça sentido. Mas o universo real está sempre um passo a frente da lógica.”

– de Citações do Muad’Dib, escrito pela Princesa Irulan

Gigantescos Vermes de Areia, viagens espaciais, disputas entre casas reais pelo poder supremo no Império Galáctico e uma droga que evita o envelhecimento, permite a visão do futuro… e vicia. Eis aí os elementos-chave para um épico fenomenal. Publicado originalmente em 1965, e vencedor de inúmeros prêmios de ficção científica, Duna, de Frank Herbert, é um dos maiores clássicos do gênero. Segundo o genial Arthur Clarke (autor de obras como 2001: Odisséia no Espaço), “a única obra que chega aos pés de Duna é Senhor dos Anéis”.

E não é apenas UM livro, é uma série extensa, de seis livros, que passa por mais de dez mil anos de história. Porém, diferentemente de outras séries, a qualidade não diminui com a seqüência, pelo contrário: o sexto livro, As Herdeiras de Duna, é a cereja do bolo, em minha opinião o melhor da série inteira. A obra é escrita ao longo de duas décadas (1965 – 1985) e só não continuou porque Frank Herbert morreu enquanto escrevia o sétimo volume. Posteriormente seu filho Brian Herbert, em conjunto com o amigo Kevin Anderson, publicam alguns livros sobre a “pré-história” da série, a partir de anotações do Frank, mas esses livros são péssimos, embora possam valer a pena para os curiosos.

A série ganhou algumas adaptações. Há um filme horrível do David Lynch, de 1984. Quem quiser conhecer Duna não assista a esse filme antes de ler o livro, vai ficar com uma péssima impressão. Há uma minissérie de TV feita nos anos 2000 sobre o terceiro livro da série, Os Filhos de Duna. Na minissérie, com seis horas para poder trabalhar, os diretores conseguiram passar a ambientação do livro de maneira um pouco mais fiel (Lynch teve que reduzir as oito horas do filme original para menos de duas horas, para poder lançar o filme). Há também uma dúzia de jogos de computador, de tabuleiro e até adaptações para RPG!

Uma diferença entre Duna e as Space-Operas clássicas está na ambientação: Em Duna a alta tecnologia foi banida a alguns milênios, varrida do mapa pela Jihad Butleriana, uma guerra santa que deixou como principal dogma para todas as religiões que vieram após o seguinte mandamento: “jamais criarás uma máquina à semelhança do homem”. Desta forma, o foco é na tecnologia psicológica e biológica: toda a computação é realizada pelos Mentat, humanos treinados na arte de fazer cálculos mentais extremamente poderosos. Há trabalhos de aprimoramento genéticos, até a “ressurreição” de uma pessoa a partir de seu DNA. Mas o mais interessante é que durante muitos milhares de anos as armas lasers suplantaram as armas de fogo, até que foi inventado o campo magnético que o anula – e mais do que anula: se um feixe laser encostar em um campo magnético teremos uma explosão equivalente a uma bomba atômica. Desta forma, as guerras são travadas ao velho estilo: lutas de espadas.

Sem o foco na alta tecnologia, a história ganha uma impulsão para se concentrar em outras ciências: sociologia, história, teologia, ecologia, psicologia… é uma narrativa densa e cativante, entremeada com olhares profundos para o ser humano e suas relações e recheada de misticismo nas entrelinhas. Também é pouco previsível, especialmente em seus desenvolvimentos posteriores, e os lados inimigos nem sempre são muito claros, cheios de tramas dentro de tramas dentro de tramas.

A história

AVISO: POTENCIAL SPOILER

Tudo começa quando o Imperador Shaddam IV decide “premiar” o Duque Leto Atreides com um feudo no planeta Duna. O “premiar” é com aspas porque se trata na verdade de uma manobra política com objetivo de destruir a casa Atreides, fonte de preocupações para a Casa Corrino (a família no trono). Porém a Irmandade Bene Gesserit – uma sociedade secreta de bruxas que está nos bastidores do poder político a alguns milênios – tem seus próprios planos: elas estão trabalhando com um programa de procriação selecionada para criar um Kwisatz Haderach, um homem capaz de acessar as memórias masculinas dos ancestrais, que estão impressos nos genes de cada um, e também de prever o futuro – em suma, um messias superpoderoso. Elas estão a um passo de conseguir seu intento: basta a filha de Leto e Jessica Atreides se casar com o filho do barão Harkonnen (a Casa Harkonnen é a maior rival dos Atreides) e o tal messias nascerá na próxima geração. Porém a Lady Jessica dá à luz a um menino, Paul Atreides, atrapalhando os planos. Paul é o Kwisatz Haderach, nascido uma geração mais cedo, fora dos controles da Irmandade e ameaçado de morte pelo plano do Imperador.

Acontece que o planeta Duna, ou Arrakis, que é seu verdadeiro nome, é um planeta deserto. Apenas a região do pólo norte é habitada pelos “civilizados”, ficando o deserto aberto para os “selvagens” Fremen e os perigosos Vermes de Areia. O problema é que a tal Especiaria Melange, o veneno que produz a vida, de que falei lá no começo, só existe nesse deserto, em todo o universo.

Está assim aberto o cenário para uma verdadeira guerra que arrasará as estrelas.

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