A Crônica das Crônicas

Padrão

*Lênon Kramer tem 26 anos e é estudante de antropologia. Seu canto tribal favorito é “Até a pé nós iremos, para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos, com o Grêmio onde o Grêmio estiver…”

Crônicas de Dragonlance

Tudo começa quando amigos que a muito tempo não se viam finalmente se reencontram. Em um mundo abandonado pelos deuses, estes companheiros haviam se separado e seguido cada um em sua jornada, em busca de sinais divinos, combinando se reencontrar na cidade de Solace em determinada data. Porém um dos companheiros falha a seu juramento, não aparecendo na data marcada.

Um meio-elfo guerreiro, Tanis Meio-Elfo; um mago humano, Raistlin, e seu irmão gêmeo extremamente forte, Caramon; um anão guerreiro muito honrado e ranzinza, Flint Forjardente; o Cavaleiro de Solamnia Sturm Montante Luzente; e finalmente o gatuno tagarela, Tasslehoff Pés-Ligeiros o kender (que é como os halflings são chamados em Krynn, o mundo onde se passa a história). Quando eles chegam na cidade percebem que as coisas não estão da mesma maneira que quando haviam partido anos atrás. E na taverna da cidade encontram um jovem casal de bárbaros da planície – a Filha do Chefe, Lua Dourada, e seu amado Vendaval – que trazem uma perigosa mensagem: “os deuses não nos abandonaram”. E aí começa a confusão. A eles posteriormente vão se juntar a elfa Laurana Auriestelar e a humana Kitiara – as duas que disputam o amor de Tanis – e o velho mago louco Fizban, entre outros.

Muita correria, fugas, lutas, monstros… dragões, espadas e magia lado a lado… e um grande mal ameaçando todo o mundo de Krynn. Uma receita básica de sucesso imediato para uma trilogia bem escrita. Mas as Crônicas de Dragonlance são um pouco mais que um clichê bem escrito. Apesar das inevitáveis chupinhações de Senhor dos Anéis, há um trabalho muito bem feito com os personagens. Para além das batalhas e do desespero, a subjetividade de cada um foi bastante aprofundada, dando muito mais cor e vida à história.

Para os leitores desta obra sempre ficarão na memória as travessuras de Tas, os resmungos de Flint, as bobagens de Fizban, as tagarelices dos gnomos… digo isso porque eu li pela primeira vez a trilogia a anos atrás, e o que foi ficou na minha memória depois desse tempo, e me fez ir atrás e ler tudo de novo foram as lembranças da montanha “deixa-pra-lá” (“um ancião cometeu o erro de perguntar aos gnomos o nome da montanha deles. Traduzido livremente, era algo mais ou menos assim: Um Monte Grande, Enorme e Alto Feito de Várias Camadas de Rocha dentre as Quais Nós Identificamos Granito, Obsidiana, Quartzo Com Traços de Outras Rochas Que Nós Ainda Estamos Analisando, Que Tem Seu Próprio Sistema Interno de Aquecimento, o Qual Nós Estamos Estudando Para Um Dia Copiar, e Que Aquece a Rocha até Temperaturas Que a Transformam tanto no Estado Líquido quanto Gasoso, Que Ocasionalmente Vêm para a Superfície e Escorre pela Encosta do Monte Grande, Enorme e Alto…. — Deixa pra lá —, o ancião disse apressadamente.”), de Tasslehoff montado no dorso de um dragão no meio de uma batalha épica… esquecido de tudo e tentando desenhar um mapa do que via embaixo; De Fizban conjurando uma bola de fogo pra abrir um cadeado… Enfim, das pequenas coisas que dão vida ao personagem, que transformam algumas palavras impressas no papel em um ser vivo com rosto, com imagem, e com quem a gente gostaria de bater um papo ou dar um rolê.

Outra coisa a acrescentar, [\spoiler] algo raro nos livros do gênero (do gênero “vamos salvar o mundo de um grande mal avassalador trazido pela Rainha das Trevas”) é que, apesar de ser uma briga entre o “bem” e o “mal”, trata-se de um elogio à neutralidade. Há que se combater o mal, mas não aniquilá-lo: deve se manter um equilíbrio, pois o puro bem é tão nocivo quanto o puro mal [\end spoiler]

E é claro que ele tem os seus defeitos, nenhum livro é perfeito. Um deles, já citado, é que em muitos momentos o enredo parece clonado de Senhor dos Anéis. Uma grande sensação de “já vi esse filme” em certos trechos cruciais da história fazem com que o que deveria ser uma revelação bombástica ou uma traição inimaginável sejam “adivinhados” antes que aconteçam. Mas no geral a diversão das “coisas pequenas” (os pequenos prazeres da vida, para quem assistiu Amélie Poulain) paga com sobras os problemas no grande enredo.

O cenário de Dragonlance foi criado inicialmente pelo casal Laura e Tracy Hickmann e virou um cenário para RPG além de diversos livros de fantasia. As Crônicas de Dragonlance são a trilogia original, publicada nos anos de 1984 e 1985 e escrita por Tracy Hickmann e Margaret Weis. Os livros da trilogia são: Dragões do Crepúsculo Outonal, Dragões da Noite de Inverno e Dragões da Alvorada da Primavera. Depois disso houveram dezenas de outras publicações, que são as Crônicas da Segunda Geração, as Crônicas Perdidas, as Lendas de Dragonlance, as Guerras das Almas, entre diversas outras pequenas séries ou livros isolados. Nem todos foram traduzidos para o português, o que é uma pena. Mesmo a trilogia original tem uma tradução bastante ruim, com vários erros de português e erros tipográficos. Ainda não li essas outras séries, porém em breve as lerei e postarei por aqui.

Aguardem para semana que vem o novo post da coluna A Crônica das Crônicas, sobre a genial Trilogia da Fundação, de Isaac Asimov.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s