A Crônica das Crônicas

Padrão

* Nota do editor: A coluna atrasou um pouco essa semana, mas a gente não ia deixar vocês sem um assunto tão legal, né?

* Lênon Kramer segue as três leis da robótica, não precisam se preocupar

Fundação e Isaac Asimov

“- Ataque agora ou nunca; com um único navio, ou com todo o poderio do Império; com a força militar ou servindo-se da pressão econômica; por via de uma ingênua declaração de guerra ou com emboscada traiçoeira; sirva-se de tudo o que você tiver no arsenal dos seus perfeitos exercícios de livre-arbítrio. Você estará perdido.

– Por causa da mão morta de Hari Seldon?

– Por causa da mão morta da matemática do comportamento humano que nunca pode ser parada, desviada, nem atrasada.

Encararam-se um ao outro no beco sem saída em que estavam, até que o general deu um passo atrás.

Disse simplesmente: – Vou aceitar esse desafio. É uma mão morta contra uma vontade livre.”

 

Várias palavras podem ser utilizadas para classificar Isaac Asimov. “Gênio” e “Visionário” são algumas delas. Outra bem poderia ser “Ingênuo”. A ingenuidade é algo presente e recorrente na obra dele, desde seus primeiros contos adolescentes, publicados em The Early Asimov, até as suas maiores e mais engenhosas obras. E isto não é uma crítica, ou um defeito, é parte do charme do autor.

E em Fundação não é diferente: há uma aura de otimismo ingênuo que paira no texto desde as primeiras linhas. Uma visão Durkheiminiana de sociedade (galera que está no ensino médio e vai ter que estudar Durkheim em sociologia, anota aí), na qual a estatística quantitativa é tão avançada que se torna possível prever matematicamente as ações das massas humanas com séculos, e mesmo milênios, de antecedência.

Hari Seldon é o fundador de uma ciência social matemática, a Psicohistória, capaz de desvendar os futuros da humanidade. E o que ele descobre? O Império Galáctico, que existe a milênios, irá cair em 500 anos, e após isso se estenderá uma nova Idade das Trevas, de trinta mil anos de duração. Não há como evitar o desastre: as massas estão encaminhadas para que o império se fragmente. Mas há como encurtar a Idade Média, fazendo surgir um novo Império mais cedo. É muito simples: envie um bando de cientistas para um canto da galáxia e os coloque para escrever uma Enciclopédia Galáctica. Com os conhecimentos científicos salvaguardados pela Fundação fica fácil: a Era Negra se estenderá por apenas mil (ao invés de trinta mil) anos até o surgimento do Segundo Império.

É essa fé absoluta no poder da ciência que dá à obra de Asimov a sua aura própria. Um otimismo científico aliado a um certo pessimismo em relação à humanidade. A Fundação degenera, a humanidade sempre degenera, com a exceção de poucos heróis notáveis que, de tempos em tempos, aparecem para salvá-la e redimi-la. Fundação é uma das poucas obras de Asimov em que os heróis são humanos, e mesmo assim eles apenas triunfam por causa da inexorabilidade da ciência. Em diversas outras obras isso se deve aos robôs, marcianos, a nêmesis, etc.

E outra característica interessantíssima dessa fé na ciência é que ela se torna extremamente mágica e até mesmo mística. Asimov segue a idéia de Clarke, que diz que “uma ciência suficientemente avançada é indistinguível de magia”, e é o que acontece com a psicohistória, por exemplo. Quando a ciência psicohistórica avança se descobre a telepatia e o poder de controlar as emoções das pessoas. Aliás, telepatia é um tema recorrente nas obras dele. Essa questão da relação entre ciência e magia é mesmo explorada diretamente no começo da história da Fundação, após o fim do Império: ameaçado de guerra pelos reinos vizinhos, os fundacionistas criam uma religião fake utilizando seus conhecimentos científicos para operarem “milagres” e converterem seus inimigos, se livrando da guerra.

A história de Fundação é, portanto, a história desse projeto, o Plano Seldon, para salvar a galáxia de uma gigantesca Idade Média. É a história dos homens enviados para os confins da galáxia, em um planeta pobre e esquecido chamado Terminus (“o fim”, ou “a borda”, “a fronteira”, em latim) e de suas peripécias e de seus descendentes ao longo dos séculos. De tempo em tempo, uma “Crise Seldon”, uma ameaça externa ou interna, surge, e é provocada uma mudança nos rumos da história, sempre expandindo o poder da Fundação, sempre indo mais e mais além.

É uma história linda. Guerras, heróis, piratas espaciais, mercadores-guerreiros, naves em confronto, romances… e dali a algumas páginas passam algumas gerações, muda o cenário e os personagens, mas o feeling permanece. Não posso contar além, porque daí já seria spoiler demais. Mas já deixo que isto é apenas o começo, pois o enredo é cheio de surpresas pelo caminho. Poucos autores souberam fazer viradas na história como Asimov soube. Vários de seus livros são imprevisíveis. Ele definitivamente tem aquela capacidade de deixar o leitor de boca aberta e se perguntando “sério isso?”.

A série da Fundação é mais que a trilogia “oficial”, publicada em 1951, 52 e 53. Este é apenas o cerne, o “núcleo duro” da história, o ponto de desenlace. Na verdade a história toda começa em “Eu, Robô” e vai até “A Fundação e A Terra”. No total são dezoito (18!!!) livros, alguns maiores e outros menores, publicados entre 1950 e 1992. Eles não são escritos na ordem cronológica dos eventos, e são compostas de pequenos “arcos” de história que se interligam entre si em uma saga gigantesca. Segue a lista completa dos livros, na ordem em que a história se desenvolve:

Eu, Robô; Sonhos de Robô; Visões de Robô; Mãe-Terra; Caça aos Robôs; Os Robôs; Os Robôs do Amanhecer; Os Robôs e O Império; As Correntes do Espaço; Poeira de Estrelas; 827 Era Galáctica; Prelúdio da Fundação; Crônicas da Fundação; Fundação, Fundação e Império e Segunda Fundação (a trilogia “oficial”, publicada no Brasil como livro único); Fundação II; Fundação e a Terra.

Não se preocupem, não precisam ler tuuuudo isso. Eu mesmo não li, faltam ainda Sonhos de Robô, Visões de Robô, Mãe-Terra, Prelúdio da Fundação e Crônicas da Fundação. E tampouco precisam ler na ordem, ela não influencia muito, já que sequer foi escrita na ordem e muito provavelmente no começo nem foi pensada como uma mesma história. Por exemplo, tanto a trilogia da Fundação quanto os livros primeiros dos Robôs foram escritos nos anos 50, já os livros que conectam uma história à outra (Robôs do Amanhecer e Os Robôs e O Império) o foram já nos anos 80, junto com os livros do final da série, em que (SPOILER!) alguns personagens dos livros dos robôs reaparecem.

 

MAS, se quiserem ler TUDO, e na ordem… VÃO EM FRENTE. Vale MUITO a pena!

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s