A Crônica das Crônicas

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* Lenôn Kramer escreveu essa resenha quando esteve Lá, e de volta outra vez.

 

“Então sentaram os deuses em seus lugares sagrados, e conselho tomaram; Para achar quem criaria a raça dos anões do sangue de Brimir e das pernas de Blain.

Houve Motsognir o mais poderoso de todos os anões, e Durin em seguida; Muito semelhantes aos homens foram feitos, os anões na terra, como Durin disse.

Nyi e Nithi, Northri e Suthri, Austri e Vestri, Althjof, Dvalin, Nar e Nain, Niping, Dain, Bifur, Bofur, Bombur, Nori, An e Onar, Ai, Mjothvitnir.

Vigg e Gandalf, Vindalf, Thrain, Thekk e Thorin, Thror, Vit e Lit, Nyr e Nyrath,– agora contei– Regin e Rathsvith– a lista corretamente.

Fili, Kili, Fundin, Nali, Heptifili, Hannar, Sviur, Frar, Hornbori, Fræg e Loni, Aurvang, Jari, Eikinskjaldi.

A raça dos anões na multidão, de Dvalin até Lofar a lista devo contar; Das pedras eles partiram, e por terras húmidas até os campos de areia onde encontraram um lar.”

 

Não, isto não é uma citação do Senhor dos Anéis, nem do Hobbit ou Silmarillion. É uma citação de Voluspö, um poema escandinavo muito antigo, cuja origem ficou perdida no tempo, e que foi transcrito pelo padre islandês Snorri Sturluson ainda no século XI. É um dos textos centrais da mitologia viking, sendo estes parágrafos apenas um fragmento da história da criação e do fim do mundo, contada sempre de memória (imagina decorar esses nomes todos!). Mas quem leu a obra de Tolkien encontrou muitos nomes conhecidos ali, a começar pelo de Gandalf. O próprio formato da poesia deve ser bem familiar, dá até pra cantarolar enquanto se anda pelos campos (se conseguir pronunciar, mas para os nativos isso não era um problema), na verdade eles foram feitos para serem cantados mesmo, podem conferir em http://www.youtube.com/watch?v=SPcfgY-SnxU&feature=related , é a leitura cantada desse poema, voluspö, cujo nome significa “a profecia da vidente” ou “as palavras da vidente”.

E é basicamente sobre isso que quero falar agora, as influências mitológicas na obra de Tolkien. Afinal de contas, vocês sabem por que “Terra Média”? Ou de onde ele tirou a idéia dos elfos? E dos orcs e trolls? Não, ele não inventou tudo isso. Os elfos são velhos conhecidos da mitologia escandinava, conforme já deu pra perceber na citação inicial: eles vivem numa terra de luz chamada ljósalfhejmr, “terra dos elfos de luz”, enquanto os anões e trolls vivem em svartalfhejmr, “terra dos elfos escuros”. Os elfos são seres relacionados às florestas e aos seres das árvores, e se conta que eles viviam cantando e dançando em grandes festas nas clareiras dos bosques. Já os trolls e anões eram seres da terra, relacionados a rochas e minerais. Tanto trolls quanto anões se transformam em pedra quando expostos à luz do sol (tem até uma história fantástica de quando um anão quer se casar com a filha de Thor. O deus do martelo então propõe a ele treze charadas, se ele acertasse todas poderia casar. O anão, Alvis, conseguiu, mas demorou demais e acabou virando pedra). Por fim, de um lado há as terras divinas, dos elfos e deuses, e do outro as terras dos mortos e dos gigantes, os inimigos dos deuses. E no meio, óbvio, a Terra Média, Midgard em nórdico clássico, a terra dos mortais.

Mas apesar dessas influências pesadíssimas, a cosmologia tolkeiniana é essencialmente cristã. Primeiro, há um criador, Ilúvatar. Mesmo os valares, que poderiam passar por divindades à escandinava, ficam no canto dele e quase não participam da vida dos mortais ou andam na Terra Média, na verdade eles acabam funcionando mais como “anjos”. Tomemos, por exemplo, a cena da criação do mundo em Silmarilion. Ela é diretamente extraída da iconografia católica: no começo era o verbo, o Senhor, e ele começou a cantar. Da música surgiram os anjos (ou os valares) que acharam tudo lindo e maravilhoso e passaram a cantar junto. Mas aí veio uma voz discordante, que estava triste com o que acontecia, o primeiro e mais poderoso dos anjos (ou valares), que se ergue em desafio. Eis aí Melkor, ou Lúcifer. Pra quem não sabe, Sauron era apenas um capitão de Melkor que sobreviveu à Guerra da Ira.

O próprio maniqueísmo presente na obra de Tolkien é muito cristão. Na mitologia viking não tem isso de guerra do bem contra o mal. Nenhum dos lados é bonzinho: a guerra entre deuses (aesires e vanires) e gigantes (jotuns) começou quando Odin e seus irmãos Vili e Ve mataram o ancestral dos gigantes, Ymir e construíram a Terra Média com a sua carcaça. Nós humanos estamos do lado dos deuses contra os gigantes porque somos seus parentes e protegidos. Já em Tolkien é diferente, o Bem e o Mal são claros e bem definidos, não há vacilo nem meio termo. O único que tenta atingir o meio-termo nessa história é Saruman, e todos sabem qual foi o seu fim. Não há lugar para ambigüidades na obra do inglês, assim como no dogma católico, já na mitologia nórdica só há ambigüidades, e as aventuras de Thor na cidade dos gigantes é um exemplo clássico. E já começando pela própria figura e Loki, que todos sabem que vai trazer o fim do mundo e a morte de todos, mas é um grande amigo dos deuses, e irmão de Odin.

Ah, falando em Saruman, alguém sabia que ele não é humano? E nem Gandalf? E, aliás, que sequer são “magos” nos termos do RPG? Sim, eles são chamados de magos em Senhor dos Anéis, pelos humanos e elfos que nada sabem sobre sua origem. Tanto que ninguém sabe sequer seus nomes, dão-lhes qualquer um, tipo Mithrandir, o peregrino cinzento. Pois é, querem saber quem são de verdade esses sujeitos? Então peguem o Silmarilion e comecem a ler, do começo.

One response »

  1. É, ele é bem maniqueista mesmo. Bem parecido com a cultura católica. Mas não se esqueça que “o primeiro” avisou Melkor que na realidade nada da canção era feito sem ele e que na realidade a dissonância criada, de um modo ou outro, originava-se do criador. Isso é bem diferente do que afirma a mitologia católica, não acha?
    Além disso, considero a busca de Melkor por “independência criativa” como algo bem diferente do que conta a bíblia sobre o tal anjo caído.

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